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E O CERIMONIAL PAGA O PATO
Gilda Fleury
Meirelles
O protocolo, infelizmente, não recebe a devida importância das autoridades, sejam governamentais ou empresariais. Este é o ponto que pode causar sérios danos à imagem e ao conceito das autoridades perante a opinião pública.
Com o mundo globalizado, as relações internacionais se desenvolvem cada vez mais e torna-se necessário o conhecimento e o respeito sobre os hábitos e costumes dos povos e países com os quais nos relacionamos para evitar as gafes, que temos visto freqüentemente e facilitar as negociações.
No caso da abertura do XV Jogos Pan-Americanos, registrou-se uma controvérsia ou uma gafe? Quebra de protocolo? Vaias e desrespeito com o Presidente da República? Desencontro de cerimoniais?
Segundo Pierre Lascoumes, doutor em direito e sociólogo francês, “sem o protocolo, todas as recepções oficiais e ocasiões de encontro entre personalidades políticas, culturais, econômicas – que são ou que acreditam ser – seriam ocasiões de disputas incessantes”.
O que nos mostra esta afirmação? As personalidades do mundo político ou empresarial são vaidosas, gostam de ser bajuladas, apoiadas, amam aplausos e odeiam vaias, divergências e oposição.
Não conhecem a diferença entre público e multidão, querendo transitar somente entre platéias com públicos treinados para a aclamação. Desse modo, deveriam ficar nos gabinetes ou em casa, sob os aplausos dos assessores e da família.
O aplauso e a vaia são manifestações; a primeira positiva, de aprovação; a segunda negativa, de rejeição. Servem para medir a popularidade de uma autoridade e formam o motivo de uma pesquisa para resultar em um programa de novas estratégias ou de comunicação mais eficaz.
Vaias e aplausos fazem parte do contexto da exposição de uma pessoa pública e, por ser pública, ela precisa ter o savoir-faire para lidar com a manifestação. Ou pelo menos, os assessores e aliados saibam analisar a situação e o preparem para o desafio. É a alma da democracia que nosso Presidente tanto preza.
A situação piora quando estamos falando de estádios, lugares públicos, com milhares de pessoas, que pensam e agem de forma diferente, são de condição sócio-econômica diversa e têm interesses opostos. Um grupo de pessoas juntas, com essas condições, não se caracteriza como público e, sim em multidão. A multidão vaia mesmo; vaia o gol, vaia o pênalti, vaia o goleiro, e no instante seguinte os aplaude. A multidão é barulhenta, age por impulso e só deseja exercer o direito de contestar.
O que não é normal é uma autoridade ficar “triste” com vaias e alegrinho com os aplausos. É simplório demais. A presença da própria autoridade naquela situação é superior a manifestações dessa natureza.
A personalidade é e faz; não necessita de puxa-saquismos para se firmar.
Dessa forma, não se justifica o Presidente da República se esconder atrás do muro da omissão, não abrindo oficialmente os XV Jogos Pan-Americanos, prerrogativa legal e única de sua pessoa, na qualidade de representante dos brasileiros.
Gosta do poder? Ótimo, então o exerça perante os Presidentes de países vizinhos e de milhares de pessoas; seja anfitrião e declare aberto os Jogos, como o protocolo esportivo normatizou desde o primeiro Jogo.
Cabe à autoridade compreender que o protocolo lhe dá direitos, prerrogativas que nenhum outro mortal teria e é a afirmação de seu poder, de que você é e faz.
Culpar depois a equipe do cerimonial é pura balela; é muito fácil atribuir a culpa aos demais. A equipe do cerimonial está sempre a postos para ajudar qualquer autoridade e, na maioria das vezes não consegue porque o seu assessorado poderá ter rompantes de raiva, ficar bravo ou triste...... Não condiz com o poder que a autoridade detém.
Por isso a desordem impera; não se executa o Hino Nacional porque a autoridade não quer; não se coloca as Bandeiras em uma solenidade pela mesma razão. Na realidade, nós do cerimonial – e me coloco entre todos – temos receio da reação da autoridade, que assessoramos, e esta, por sua vez, teme a reação da platéia.
Imaginem se a Rainha da Inglaterra não colocasse a Coroa Real em uma longa solenidade por ser ela pesada demais! Se um Desembargador não usar a toga em um julgamento porque está calor! E, se o Papa desistisse da hora do Angelus porque está cansado!
Cada cargo tem sua liturgia, majestade, ritos e pompa. Exercê-lo em sua plenitude, é exercer o poder!
Aplausos e vaias são condicionantes da democracia e da pluralidade e não devem influenciar quem quer que seja e, muito menos, autoridades.
E viva a democracia e a diferença de opiniões!
18/07/2007

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