ARTIGOS

HOMENAGENS A QUEM MERECE

Gilda Fleury Meirelles

A definição de medalha no Dicionário Houaiss é “distinção honorífica concedida a alguém que se destacou numa dada área de atividades”. O mesmo que condecoração, “distinção honorífica, para recompensar por algum serviço, com que se agracia alguém”.

As organizações, governamentais e privadas, utilizam homenagens como política de relações públicas, a personalidades que se distinguiram em determinado campo.

A Ordem Nacional do Mérito é a mais alta condecoração que recebe um brasileiro que se destacou e prestou relevantes serviços à Pátria. 

A Medalha "Mérito Santos Dumont", criada pelo Decreto nº 39.905, de 5 de setembro de 1956 “poderá ser concedida a civis e militares, brasileiros ou estrangeiros, que hajam prestado serviços à Aeronáutica Brasileira, e àqueles que, por suas qualidades ou valor em relação à Aeronáutica, forem julgados merecedores desse prêmio”. (Artigo 1º do Decreto 66.815 de 30/6/70, revogado pelo Decreto 4.209, de 23/4/2002). 

Três dias após o acidente com o avião da TAM, em Congonhas, considerada a maior tragédia na história da aviação brasileira, foram homenageados, em Brasília, dois diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), com a Medalha "Mérito Santos Dumont", outorgada pela Aeronáutica e, segundo a justificativa oficial, pelos bons serviços prestados à aviação (?).

A solenidade, na Base Aérea de Brasília, contou com a presença do vice-Presidente da República, José Alencar, que condecorou alguns homenageados. 

Para que isso acontecesse, foi organizado um evento – instrumento de relações públicas – que se define como:

“Instrumento institucional e promocional, utilizado na comunicação dirigida, com a finalidade de criar conceito e estabelecer a imagem de organizações, produtos, serviços, idéias e pessoas, por meio de um acontecimento previamente planejado, a ocorrer em um único espaço de tempo com a aproximação entre os participantes”. 
(da autora deste artigo em “Eventos – Seu Negócio, Seu Sucesso” – 2ª edição, 2003)

Quando questionado sobre a conveniência da cerimônia, o vice-Presidente José Alencar, afirmou: “É uma cerimônia marcada com uma antecedência muito grande, uma cerimônia da Aeronáutica”. 

A Aeronáutica, como todos nós, estava de luto. Luto não é sinônimo de festa.

Eventos são instrumentos da comunicação que precisam ser planejados e implantados com avaliação de ocasião adequada e oportuna, momento político, público-alvo e opinião pública. Eventos podem ser organizados e cancelados, com a análise de suas variáveis.

Ao que consta, isso não foi feito. 

A outorga das medalhas aos diretores da ANAC, no momento da grande tragédia e da comoção, foi inoportuna e em nada contribuiu para consolidar ou ampliar o conceito das organizações. Na mesma ocasião as televisões mostravam o trabalho incansável dos soldados do Corpo de Bombeiros de São Paulo, em condições adversas, vencendo o cansaço, varando noites na busca dos sobreviventes. Enquanto isso, a Nação chorava, as famílias buscavam os seus entes familiares com a réstia de esperança de que algum milagre ainda pudesse acontecer.

As cenas mostradas eram dolorosas.

À condecoração, somaram-se frases desastrosas, opiniões contraditórias; as televisões captaram gestos obscenos, estes justificando a alegria pela isenção de culpa do governo pelo acidente com o Airbus, como informou o autor dos tais gestos. Desde quando gestos obscenos são sinais positivos? Desde quando gestos obscenos restauram conceito?

O Governo e o empresariado precisam parar e pensar. Comunicação não é brincadeira; é um campo do conhecimento que estuda os processos da comunicação humana. Entre as suas disciplinas incluem-se a teoria da informação, comunicação intrapessoal e interpessoal, marketing, propaganda, relações públicas, relações governamentais, análise da mensagem (discurso) e jornalismo. Os eventos – ferramenta das relações públicas –, quando bem utilizados, contribuem para a formação, ampliação e consolidação do conceito das organizações.

A Aeronáutica quer homenagear alguém? Então, no tempo e no espaço deste momento, quem merece ser homenageado são os bombeiros. Heróis anônimos, que nunca mediram e não medem esforços para minimizar os efeitos das grandes tragédias que abalam o País, como esta.

Há momentos, nas relações humanas e, também, nas relações públicas, nos quais o minuto de silêncio é mais eloqüente. 

25/07/2007