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CARNAVAL
E tudo se acaba em
cinzas, na quarta-feira
Gilda Fleury
Meirelles
Não queremos
tentar definir o carnaval, mas entender esse conjunto de festas que nos
faz esquecer de tudo, durante três dias seguidos. Trata-se de um
período de festas regido pelo ano lunar que tem suas origens na
Antiguidade, recuperadas pelo Cristianismo; começava no dia de
Reis e terminava na Quarta-feira de Cinzas, véspera da quaresma.
Pelo
cristianismo, o carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou "carne nada
vale" dando origem ao termo "carnaval"; a partir da quarta-feira
de cinzas prevalecia o jejum da carne, época de abstinência e
religiosidade, terminada após a quaresma. Para adentrar nessa época
religiosa, dava-se adeus aos tempos carnais com uma concentração de
festas populares – o carnaval.
Cada país,
cada povo, cada cidade comemorava a seu modo, de acordo com seus
costumes.
O carnaval europeu começou na rua, com desfiles de
disfarces e carros alegóricos e, em ambiente fechado, com bailes,
fantasias e máscaras. O carnaval carioca, certamente o primeiro do
Brasil, surgiu em 1641, promovido pelo governador Salvador Correia de Sá
e Benevides em homenagem ao rei Dom João IV, restaurador do trono de
Portugal. A festa durou uma semana, com desfile de rua, combates,
corridas, blocos de sujos e mascarados. A ordem era divertir-se,
comemorar.
O carnaval
moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana
do século XIX. As cidades de Paris e Veneza foram os grandes modelos
exportadores da festa carnavalesca para o mundo; Nice, Nova Orleans,
Toronto e Rio de Janeiro se inspirariam no Carnaval francês para
implantar suas novas festas carnavalescas.
Atualmente,
no Brasil, o carnaval é considerado um dos mais importantes desfiles do
mundo, não só no aspecto de beleza, requinte e criatividade como no
econômico. Emprega milhares de pessoas de todos os setores ativos da
economia brasileira como profissionais do segmento de eventos – criação,
planejamento, organização e coordenação -, de segmentos afins, como
músicos – compositores e instrumentistas -, coreógrafos, designs,
artistas plásticos, estilistas e costureiras, maquiadores e
cabeleireiros, artistas, empresas montadoras de estandes e palcos,
cinegrafistas, fotógrafos, iluminadores e operadores de som, garis,
seguranças, e toda uma gama de profissionais de apoio que seria difícil
enumerar de um a um.
Por outro
lado, cresce a indústria hoteleira, incrementa o turismo e o segmento de
restaurantes, bares e bebidas, dinamiza o mercado da comunicação, a
publicidade, o jornalismo e as relações públicas. O setor governamental
se levanta com o reflexo da imagem do Brasil no exterior.
Dentre todos
os tipos de evento conhecidos, afirmamos que o carnaval tem um objetivo
único e específico, além de movimentar a economia, fazer as pessoas se
divertirem, escapando da fria realidade do dia-a-dia.
Para fugir
da realidade que tanto nos assusta, era preciso criar uma nova realidade:
a do sonho, a da ilusão. A fantasia tornou-se um disfarce e uma fuga
ideal.
Inicialmente, o Teatro Municipal do Rio de
Janeiro iniciou concursos de fantasias de luxo – a princípio só
femininas e, depois dos anos 50, masculinas –, que atraiam os ricos e
poderosos. Bem familiares em suas primeiras versões, reunindo a
sociedade abastada em trajes de gala, foram se tornando cada vez menos
bailes de fantasia. Os trajes pesados não permitiam dançar, apenas
pular, e à casaca e ao smoking juntava-se o traje esporte e descontraído
das mulheres.
O carnaval não poderia
ficar fechado aos salões; assim surgiu o que chamamos carnaval de rua,
com a participação de todos, independente de posição social e econômica.
Era o sonho ao alcance de todos.
Por três dias, nossas
origens são esquecidas e a ordem é entrar em um mundo irreal no qual
tudo é possível, tudo é viável. São esquecidas as dores, sofrimentos e
misérias – tanto que não vemos blocos carnavalescos representando a
fome, a angústia, o desemprego, mas a beleza, o requinte, a nobreza.
Nesse mundo
de sonhos, idealizamos o personagem que desejamos ser; nos tornamos reis
e princesas, nobres e súditos (com prestígio e poder), deuses, anjos e
arcanjos; pierrôs e colombinas, fantasmas, piratas, super-homem e
mulher-maravilha. Políticos são caricaturados e, dadas vazões a
todos os sonhos. O que não podemos retratar publicamente, por ferir a
ética, a boa conduta, o fazemos disfarçados, sob o escudo do carnaval.
A pobreza, a
fome, o desespero, a dor, a decepção, a traição – condições negativas do
ser humano – ficam para trás. Vestidos de novos senhores, com poder e
beleza, todos saem para viver seu momento de glória.
Promover eventos é uma
arte. O esforço despendido, a energia solicitada, a disciplina, a
dedicação, o clima, a sinergia criada entre organizadores e público
ficam direcionados para a busca da perfeição, do melhor a se mostrar,
para que o melhor possa ser lembrado.
Realizar e participar de um evento carnavalesco é uma glória. É a
possibilidade de vivermos um sonho, em um mundo irreal, que ficará
sempre em nossas mentes como a esperança de algo longínquo a ser
conquistado.
Mesmo que tudo se torne cinzas na quarta-feira.
01/02/2008

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