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PRESENTE, BRINDE OU
MICO?
Gilda Fleury
Meirelles
No
momento da escolha de brindes para um evento, presente para o
palestrante, começa o meu suplício. Flores? bom presente, mas será que
ela gosta de rosas? Não; é moderna, acredito que os antúrios façam um
arranjo mais in. Decidi pelo chocolate, pois quem não gosta? meu
Deus! me esqueci do eterno regime. Não, chocolate, não. Lenços? Não
vejo ninguém mais usá-los; estão ultrapassados, afinal para que servem
os de papel? E, ainda, existem povos que têm superstição – para o mundo
oriental lenço é sinal de choro, velório, morte. Nem pensar.
Como é
difícil lidar com presentes e não dar micos. Aquele relógio... ganhei
em um evento; bonito mas nunca funcionou. Fica na prateleira do
escritório; quem sabe um dia aparece quem deu... Porta-cartões? Tenho
mil; prateados, dourados, de aço escovado, de couro. Quem sabe, um dia
terei cartões em tantos idiomas quanto os porta-cartões que coleciono.
Calendários? Já estamos em março e ainda chegam. Quisera que o ano
tivesse tantas horas, para preencher as atividades em todos eles.
Agenda... tomara que chegue uma; as empresas pararam de ofertar no
final do ano; afinal com o preço tão alto, quem se arrisca? Canetas?
Adoro, sempre é bom ter uma à mão; descobri um bom brinde, mas é preciso
que escreva, não falhe, não borre. E o chaveiro? São vários, atualmente
tem até com caveirinha.... ai.
Tentando
planejar os brindes para os eventos deste semestre, lembrei-me de várias
situações, protocolares, oficiais ou não, nas quais os presentes foram
decisivos para a conquista de clientes, de pessoas ou a sua perda e o
estresse. E os sociais? Que dificuldade! Temos de dar, de retribuir e
sempre erramos.
Histórias
não faltam. E os de amigo-secreto? Várias pessoas tentam passar aquele
presente encalhado que ganharam da tia-avó e a situação fica hilária. Um
amigo solteiro recebeu no último Natal uma máscara de porcelana
venezuelana, pintada a mão. Quando tentava esboçar um sorriso forçado,
ouviu: “Gostou? É antiga, vi que adorou. No próximo Natal dou o par;
fica lindo, colocada na parede, lado a lado”. O agraciado mora em um
flat; não pode furar a parede.
E roupas?
Nunca servem. Diz o protocolo que não se dá peças íntimas. Nem quando se
tem intimidade? Luto contra a balança desde que me conheço por gente.
Detesto ganhar tamanho GG, mas também tamanho P,... é gozação. Pois é,
ganhei neste Natal. Fui trocar. Vendedores odeiam trocas e já nos olham
com cara de desprezo. “Posso ajudá-la?” Humildemente (quem troca por
número maior, tem de pedir humildemente, mesmo), expliquei que desejava
trocar o tamanho da blusa. Ouvi um bravo: “Esta blusa não é daqui.”
Tentei argumentar “ e a sacola”? Ouvi um seco “somente a sacola”. Ótimo,
minha filha ganhou uma blusa nova..., mas, é muito jovem, e prefere
camisetas transadas!
Mamãe ganhou, há uns
Natais atrás, um leitãozinho de um amigo de papai. “Para você fazer no
dia 24, irei cear com vocês”, falou sorrindo. A ceia estava encomendada,
a empregada tinha folga e mamãe não gostava de cozinhar. Ainda mais no
Natal!
O pior é
que quem dá tem tanta boa vontade, é tão agradável, quer acertar. Aí
começo a colecionar sapinhos de cerâmica, imãs de geladeira,
chaveirinhos.....
Escrevendo de novo chaveirinho, lembrei-me de minha saudosa avó Sinhá.
Era ótima, alegre, a adorávamos. Que falta nos faz! Mas, para presentes,
meu Deus! Acredito que tinha conta corrente em uma loja de produtos
chineses perto de sua casa, pois os presentes eram sempre de lá. Aos 16
anos, querendo parecer adulta e sofisticada, como dos filmes da época,
tentei começar a fumar. Que horror para os dias de hoje! mas na ocasião
era chiquérrimo. Vovó Sinhá me deu um isqueiro chinês, transparente;
dentro do fluído, uma mocinha se movia, dançando. Ai, que brega. Sorri,
beija-a muito – tão querida – mas esqueci o desejo de fumar na hora.
Uma prima
ganhou de Natal do marido – que nunca dava presente – uma bolsa de
marca, maravilhoooooosa. Amou, adorou, mostrou a todos. Qual não foi o
seu susto, quando dias depois, vendo-a com a famosa, ele disse “você
trocou a bolsa? Escolhi com carinho a marfim para você”. A bolsa era
preta. Curiosa e desconfiada – com certas coisas não se mexe,
entenderam? – foi à loja. A vendedora lembrou-se bem do senhor galante
que comprou duas bolsas para a esposa, uma preta e uma na cor marfim.
“Que sorte a senhora tem; quer ver as novidades”, disse uma sorridente
vendedora.
E os
presentes reciclados? Exceto papel de carta e algumas sacolas, não
encontrei nada bonito, ainda. Mas aqui vale, por uma Terra melhor.
Já
ganharam o “fiz especialmente para você; gosta?” Panetone (no Distrito
Federal é mais caro, segundo José Roberto Arruda) com pouco ou muito
açúcar, chocolate aerado, suco em garrafa que explode, cinto trançado em
corda – verde e abóbora! O que fazer?
Concluímos que nossa responsabilidade ao escolher um mimo, um presente
ou um brinde, seja social ou empresarial, é grande.
Mas quem
recebe também tem sua responsabilidade. Responsabilidade de aceitar o
presente como uma oferta, sempre com boa intenção.
Afinal
até o dicionário define como presente “tudo aquilo que se oferece, de
forma gratuita, a alguém com a intenção de fazer este mais feliz, em
sinal de atenção, confiança, amor e amizade”.
Lembre-se
que, grande ou pequeno, rico ou pobre, bonito ou feio, o presente é dado
de coração. É alguém ou uma empresa que lembrou de você. Agradeça.
Não vale
somente alguém se lembrar de você? Não há preço que pague isso – ser
lembrado.
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Gilda Fleury Meirelles
05/05/2009

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