A 17ª Cúpula Ibero-Americana realizada
recentemente no Chile, reuniu os líderes latino-americanos, espanhóis e
portugueses, com tema pomposo, polêmico e, no mínimo, exótico: coesão
social, considerando as diferenças de ordem social, econômica e política dos
países participantes. A cumbre transcorreu em clima de cordialidade e morna
como um convescote. Mesmo assim, possibilitou traçar a linha que separa
políticas populistas e os modelos sociais- democratas no Continente. A
diferença está nas nações onde a democracia é exercida em sua plenitude e,
nas demais onde o populismo está em desenvolvimento e a ruptura dos canônes
democráticos é evidente.
Esta é a diferença entre a Espanha e a
Venezuela. A primeira, uma monarquia constitucional e parlamentarista, com
as instituições funcionando, a democracia aceita, exercida e consolidada. A
segunda, rica em petróleo – o quinto produtor do mundo -,sob o tacão do
caudilhismo, conflitos internos, oposição reprimida e reforma constitucional
para perpetuar no poder o presidente de plantão.
Se a cumbre transcorreu madorrenta, o
encerramento foi agitado pelo histriônico e patético presidente da
Venezuela, Hugo Chávez. Como já fizera em outros encontros internacionais,
de forma descortês – a cordialidade e o respeito são os pilares da
civilidade e, em especial, nas relações entre chefes de Estado e de Governo
-, insultuosa, fora da agenda, interpelou e acusou o então chefe de governo
espanhol, José Maria Aznar, chamando –o de fascista e que teria apoiado o
movimento que o depusera em 2002.
Na avaliação do presidente venezuelano, o
cenário estava montado e o momento propício a sua verborragia, com a platéia
de sua patota e patrocinados Evo Morales, Daniel Ortega, Nestor Kirchner –
em 2008, o primeiro-damo da Argentina – e Rafael Correa. Ledo engano.
O premiê espanhol, José Luiz Zapatero,
reagiu, defendeu Aznar – seu antecessor e adversário político –, exigindo
respeito a sua personalidade ausente e ex-chefe de governo da Espanha. A
presidente do Chile e anfitriã da Cúpula, Michele Bachelet, cortou o som da
bancada venezuelana. Em vão. Chávez continuou o desatino, a patacoada, a
patranca, interrompendo Zapatero aos gritos e constrangendo a todos.
Diante de tantas agressões gratuitas,
infundadas, grosseiras, o rei Juan Carlos, homem educado, culto, comedido,
conciliador e moderador, em rompante de indignação pelas infâmias, dedo em
riste apontando para Chávez, disse as palavras que calaram e colocaram o
aspirante a ditador no lugar de onde nunca deveria ter saído: “Porquê no
te callas?” alto e bom som, ecoando pela sala e pelo mundo.
A intervenção e as palavras do rei Juan
Carlos, atravessada na garganta de muitos sem, contudo, dizê-las em função
das relações entre nações e, sobretudo, da “real politik” base das relações
diplomáticas e comerciais na era globalizada. Chávez esperava o apoio a mais
essa patuscada da patuléia dos seus seguidores. Silêncio. Enganou-se mais
uma vez. O equilíbrio, a razão e a presença do monarca espanhol pairou acima
de tudo e de todos.
Cabe, aqui, um lembrete. Esta não foi a
primeira vez e, nem será a última, em que o rei Juan Carlos, enfrenta
coronéis golpistas e, o coronel venezuelano por desconhecer a história
recente da Espanha, ousou fazê-lo. Ficou na intenção e qual criança
birrenta, tomou a reprimenda pública, em bom português: CALE-SE!
Vamos aos fatos. Em fevereiro de 1981, o rei
Juan Carlos, cuja liderança indiscutível, autoridade incontestável, força
moral, altivez e mão firme reuniu e alinhou as forças armadas para sufocar a
tentativa de golpe do coronel Antonio Tejaro, que havia ocupado com os seus
comandados o parlamento tornando o governo refém. Ficou na tentativa.
A ação e a decisão do monarca, em momento
decisivo da transição espanhola – do franquismo para a monarquia
Constitucional -, consolidou a democracia, o respeito e o prestigio da
monarquia constitucional e do parlamentarismo, como forma e sistema de
governo legítimo, legal e democrático no mundo globalizado.
Palavras de Rei “ Porquê no te callas?”