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E tudo se acaba em cinzas, na quarta-feira
05/02/2010 | Gilda Fleury Meirelles

 Não queremos tentar definir o carnaval, mas entender esse conjunto de festas que nos faz esquecer de tudo, durante três dias seguidos. Trata-se de um período de festas regido pelo ano lunar que tem suas origens na Antiguidade, recuperadas pelo Cristianismo; começava no dia de Reis e terminava na Quarta-feira de Cinzas, véspera da quaresma.

Pelo cristianismo, o carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou "carne nada vale" dando origem ao termo "carnaval"; a partir da quarta-feira de cinzas prevalecia o jejum da carne, época de abstinência e religiosidade, terminada após a quaresma. Para adentrar nessa época religiosa, dava-se adeus aos tempos carnais com uma concentração de festas populares – o carnaval.

Cada país, cada povo, cada cidade comemorava a seu modo, de acordo com seus costumes. O carnaval europeu começou na rua, com desfiles de disfarces e carros alegóricos e, em ambiente fechado, com bailes, fantasias e máscaras. O carnaval carioca, certamente o primeiro do Brasil, surgiu em 1641, promovido pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides em homenagem ao rei Dom João IV, restaurador do trono de Portugal. A festa durou uma semana, com desfile de rua, combates, corridas, blocos de sujos e mascarados. A ordem era divertir-se, comemorar.

O carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XIX. As cidades de Paris e Veneza foram os grandes modelos exportadores da festa carnavalesca para o mundo; Nice, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspirariam no Carnaval francês para implantar suas novas festas carnavalescas.

Atualmente, no Brasil, o carnaval é considerado um dos mais importantes desfiles do mundo, não só no aspecto de beleza, requinte e criatividade como no econômico. Emprega milhares de pessoas de todos os setores ativos da economia brasileira como profissionais do segmento de eventos – criação, planejamento, organização e coordenação -, de segmentos afins, como músicos – compositores e instrumentistas -, coreógrafos, designs, artistas plásticos, estilistas e costureiras, maquiadores e cabeleireiros, artistas, empresas montadoras de estandes e palcos, cinegrafistas, fotógrafos, iluminadores e operadores de som, garis, seguranças, e toda uma gama de profissionais de apoio que seria difícil enumerar de um a um.

Por outro lado, cresce a indústria hoteleira, incrementa o turismo e o segmento de restaurantes, bares e bebidas, dinamiza o mercado da comunicação, a publicidade, o jornalismo e as relações públicas. O setor governamental se levanta com o reflexo da imagem do Brasil no exterior.

Dentre todos os tipos de evento conhecidos, afirmamos que o carnaval tem um objetivo único e específico, além de movimentar a economia, fazer as pessoas se divertirem, escapando da fria realidade do dia-a-dia.

Para fugir da realidade que tanto nos assusta, era preciso criar uma nova realidade: a do sonho, a da ilusão. A fantasia tornou-se um disfarce e uma fuga ideal.

Inicialmente, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro iniciou concursos de fantasias de luxo – a princípio só femininas e, depois dos anos 50, mawculinas –, que atraiam os ricos e poderosos. Bem familiares em suas primeiras versões, reunindo a sociedade abastada em trajes de gala, foram se tornando cada vez menos bailes de fantasia. Os trajes pesados não permitiam dançar, apenas pular, e à casaca e ao smoking juntava-se o traje esporte e descontraído das mulheres.

O carnaval não poderia ficar fechado aos salões; assim surgiu o que chamamos carnaval de rua, com a participação de todos, independente de posição social e econômica. Era o sonho ao alcance de todos.

Por três dias, nossas origens são esquecidas e a ordem é entrar em um mundo irreal no qual tudo é possível, tudo é viável. São esquecidas as dores, sofrimentos e misérias – tanto que não vemos blocos carnavalescos representando a fome, a angústia, o desemprego, mas a beleza, o requinte, a nobreza.

Nesse mundo de sonhos, idealizamos o personagem que desejamos ser; nos tornamos reis e princesas, nobres e súditos (com prestígio e poder), deuses, anjos e arcanjos; pierrôs e colombinas, fantasmas, piratas, super-homem e mulher-maravilha. Políticos são caricaturados e, dadas vazões a todos os sonhos. O que não podemos retratar publicamente, por ferir a ética, a boa conduta, o fazemos disfarçados, sob o escudo do carnaval.

A pobreza, a fome, o desespero, a dor, a decepção, a traição – condições negativas do ser humano – ficam para trás. Vestidos de novos senhores, com poder e beleza, todos saem para viver seu momento de glória.

Promover eventos é uma arte. O esforço despendido, a energia solicitada, a disciplina, a dedicação, o clima, a sinergia criada entre organizadores e público ficam direcionados para a busca da perfeição, do melhor a se mostrar, para que o melhor possa ser lembrado.

Realizar e participar de um evento carnavalesco é uma glória. É a possibilidade de vivermos um sonho, em um mundo irreal, que ficará sempre em nossas mentes como a esperança de algo longínquo a ser conquistado.

Mesmo que tudo se torne cinzas na quarta-feira.

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